George Monbiot é um ambientalista declarado, e um dos poucos que eu respeito e admiro. Posso não concordar com algumas de suas posições, mas é um cara que sabe submeter o pensamento ao crivo da lógica e dos fatos, e que se esforça para evitar racionínios chamânicos como os que professam os seguidores de Marina Selva. Na lista aqui do lado direito você encontrará o blog dele, que é fenomenal; neste post, você descubrirá que esse jornalista inglês já passou uma longa temporada no Brasil escrevendo um livro intitulado "Amazon watershed", publicado em 1991.
O trabalho de Monbiot é da mais alta qualidade. As suas colunas no jornal Guardian deixam qualquer um com vontade de rodar a fita até um futuro em que, quem sabe, o Brasil venha a ter jornalistas decentes. Monbiot saiu dos meios requintados de Londres, no final dos anos 1980, para viajar a Amazônia de ponta a ponta, sem medo de esmiuçá-la, expondo as suas entranhas e batendo de frente com lendas urbanas de todas as marcas. Aprendeu o português a ponto de ter tido longas conversas com garimpeiros em Roraima, fazendeiros no Maranhão, migrantes despossuídos no Pará, índios em Rondônia, entre outros. Perguntou, ouviu, perguntou, ouviu.. refletiu.. refletiu.. refletiu.
"When Mr. Sarney became governor of Maranhão, much of the state was still forested, and farmed traditionally by peasant communities (...) His agriculture minister and trasurer travelled through Brazil, offering land at risible prices, informing big businesses that for the price of one hectare in São Paulo state they could buy 1.000 in Maranhão (...).
The investors, unlike the citizens of the state, were guaranteed roas and electricity, and an absence of competing landclaims. Regrettably the land they were sold was owned already. Thousands of peasants were farming the two million hectares Sarney had dispended, and the government had to fulfil its guarantees. The peasants were expelled, and they moved to the cities of the Amazon" (p. 40 - 41).
Monbiot conta a história de um governo estadual que desprezava as atividades tradicionais da gente pobre do campo. Narra a saga de pequenos agricultores que foram expulsos de suas terras, das formas mais violentas possíveis, para dar lugar a indivíduos endinheirados de lugares distantes que compravam as terras a preço de banana, e tinham como único objetivo aumentar ainda mais o tamanho de suas riquezas fora da Amazônia. Descreve a infeliz audácia de um governo que, para fazer o que acreditava ser o bem das futuras gerações, submeteu o seu povo à barbaridade de ter que entregar tudo o que tinha, na força da bala, para proteger as suas vidas.
Se você ainda não notou, aquilo que Monbiot vivenciou no Maranhão dos anos 1980 / 1990 é exatamente o que estamos vivendo atualmente na Amazônia. Hoje, muitos de nossos governantes, iludidos por ambientalistas, estão certos de que o tipo de atividade que os
nossos agricultores realizam não é bom para as futuras gerações, e que,
então, faz sentido repassarmos as terras deles a ricaços de outros
países que, pagando preço de banana, aumentarão ainda mais os seus próprios
níveis de vida.
Estes governantes, alinhados aos ambientalistas, acreditam que a produção rural de todos aqueles que desmataram além dos 20% que a atual lei permite - ou seja, a maioria absoluta -, deve ser severamente punida pelos desmatamentos que fez. Mas os nossos pequenos agricultores desrespeitaram reservas legais e áreas de preservação permanente porque
precisavam colocar pão na boca de suas crianças; assim como os pequenos agricultores do Maranhão haviam ocupado aquelas terras para praticar as suas tradicionais atividades de subsistência.
A expulsão dos nossos pequenos agricultores de suas terras é feita ao mesmo estilo do Maranhão de Monbiot: na base da porrada. Se você não sabe disto, veja aqui e aqui. Eu mesmo presenciei o IBAMA expulsando de suas terras um produtor rural que tinha um sítio lindo, com lavouras de milho e café, um belo mandiocal, um chiqueiro com pelo menos uns trinta porcos, e muitas árvores de fruta, sem lhe dar sequer o tempo de juntar as suas coisas. O homem era um batalhador perdido no meio da floresta em uma das margens do rio Machado, e por pouco não saiu algemado de sua casa. Além disso, os policiais chegaram muito perto de eliminar, com tiros na cabeça, todos os porcos que o homem havia diligentemente criado.
Este homem foi expulso de suas terras para que nelas possa crescer nova floresta, que por preço de banana irá absorver o carbono que emitem os italianos, estadunidenses, japoneses, etc.
Os nossos pequenos agricultores, que, com muito pesar, abandonam as suas terras por não terem a menor possibilidade de cumprirem a legislação ambiental, também terminam nas favelas das cidades próximas, exatamente como aqueles maranhenses de Centro dos Aguiar e de Pau Santo foram parar nas favelas de São Luís.
Já os nossos grandes agricultures e pecuaristas, estes conseguem se defender de legislações ambientais punitivas, pois têm recursos para isso. Não são, portanto, as maiores vítimas da violência, exatamente como acontecia no Maranhão descrito por Monbiot.
Estamos repetindo os erros do passado. Temos de acordar para o fato de que os nossos agricultores, que deram o sangue para sobreviver na Amazônia dos anos 1970, 80, 90, são heróis, não criminosos. O desmatamento que eles fizeram deu ao Brasil um retorno incomensurável, e mesmo assim nos deixou sendo a maior potência florestal do mundo. Estes indivíduos - e estou me referindo aos pequenos, porque os grandes sabem se proteger - estão sendo vítimas de um ambientalismo fascista que, na sede de exterminar os grandes fazendeiros e salvar todas as minhocas da floresta, não hesita em oprimir um grupo social majoritário, fazendo-o andar pelas ruas com estrelas pregadas na camisa e jogando-o nos guetos das favelas.

3 comentários:
Infelizmente, como sempre e em todas partes, a história se repete. E somente quem tem, como você, a curiosidade de se informar sobre o que aconteceu, de fuçar no passado, e comparar com a situação presente, pode ter a distância crítica necessária para (tentar de) entender o que está acontecendo na Amazônia hoje, observando, analizando, refletindo, e consultando várias fontes de informação, e sobretudo aquelas que não estão no circuito oficial - o verdadeiro trabalho de um autêntico jornalista : o que Monbiot fez, o que você está fazendo, o que, se espera, outros chegarão a fazer, com lucidez e honestidade intelectual.
Só uma lembrança:
Nem todos os médios e grandes produtores vão aguentar os impactos do código florestal - principalmente aqueles que vivem exclusivamente da agropecuária e/ou estão com as finanças no limite. Se um produtor, mesmo grande perder 50% de sua área como vai pagar os investimentos que fez? Como vai manter as estruturas que foram "desenhadas" para uma determinada escala de produção ? Como vai manter os empregos de seus empregados ?? e etc...
Para os pequenos o impacto é terrível, mas não deixa de ser extremamente complicado para médios e grandes . Deste ponto pouco se fala!! abs
Celso, você tem toda a razão.
No entanto, temos que admitir que produtores rurais mais capitalizados têm alternativas ao campo. Se realmente não tiverem como continuar na agropecuária, têm condições de migrar para outras atividades sem cair na misérie. Já os pequenos seriam enviados do campo diretamente para as favelas.
Abraço
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